Se me perguntassem, diria que sou uma pessoa pessimista. Antecipo com excessiva facilidade aquilo que de mau pode acontecer e encaro a vida como uma espécie de copo em constante esvaziar-se. Raramente vejo desafios, só obstáculos. Com 15 anos referia-me à espécie humana como “o cancro da Natureza”. Com o tempo fui perdendo muitas esperanças, e A Esperança que ainda me habita não é clara, pelo contrário, prefigura-se obscura e encolhida, é uma esperança com hora marcada. A experiência tem me revelado que aquilo que é preciso acontecer para “as coisas melhorarem” acaba por acontecer sem que as coisas melhorem. Se isto ocorre efectivamente assim ou depende apenas de uma atitude pela qual sou a única responsável? Por mais que me incline para a segunda hipótese, tal consciência não me tem devolvido alterações significativas. Vão variando os graus de uma mesma postura. Uma postura negativa e, pior do que regressiva, estática.
Não obstante, sempre que sou obrigada a adentrar o meio hospitalar, lugares onde a vulnerabilidade humana atinge picos insuperáveis, onde a dor não é um eufemismo, onde nenhum lamento se revela poético, onde os corpos se acamam à espera da salvação, nesses momentos, sinto inexplicável um optimismo desmesurado. Por todo o lado estão presentes pessoas cuja função é o alívio da dor, a cura, o conforto, e aquilo que fazem não se esgota nos cuidados aos doentes, lidam simultaneamente com o desamparo de quem lá vai por esses doentes, e lidam de uma forma que me enche de esperança. Por instantes parece-me que sim, que afinal vivemos no melhor dos mundos possíveis, porque precisamos todos e imenso uns dos outros e sabê-mo-lo com o mesmo nível de certeza com que identificamos uma dor de dentes.

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6 pensamentos sobre “Optimismo Inusitado

  1. Eu preciso de ser optimista, Kina. Esforço-me para ser optimista, combato o pessimismo que me é natural e inerente. Não o fazer seria conformar-me com aquilo que, por exemplo aqui nos blogs, é referido de forma quase cartesiana (go figure) como “as coisas são como são”. Recuso fazê-lo, sou por uma espécie de holística. As coisas até podem ser como são, mas nós não somos coisas e as coisas são, acima de tudo, o que nós fizermos delas.

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  2. Estou quase sempre de acordo contigo, em se tratando de ideias que nos orientem no meio desta trampa toda que é estarmos vivos (“life is too hard and then we die”). Mas custa tanto estar sempre em luta connosco…
    sempre grata por aqui vires, qual espécie de enfermeira pronta a aliviar-me qualquer coisinha… 🙂

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  3. Sim, custa estar em constante luta connosco, mas se combatermos o pessimismo, de cada vez que nos tornamos um pouco mais optimistas, deixamos de precisar de nos combater outro tanto.

    Daqui a nada estou a fazer um daqueles blogs todos positivos e zen. 😀
    As coisas escritas são tão mais fáceis, bate sempre tudo tão certo.

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  4. Embora atrasada no calendário e na oportunidade de comentar, estas palavras parecem escritas para mim. Desse lado, espero que agora em julho, algum otimismo, possa ter sido já alcançado.

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  5. Mia, as tuas palavras nunca chegam em atraso e são sempre oportunas.
    Sobre o texto em causa: o motivo pelo qual me deslocava aos hospitais, nos últimos anos, deixou de existir, porque a pessoa amiúde em cuidados acabou por sucumbir-lhes. Não sei ainda em que medida este facto favorece um (optimismo) ou outro ( pessimismo). Mantenho porém a convicção, uma das muito poucas que me restam, de que os chamados “profissionais de saúde” (onde incluo auxiliares, contínuos de limpeza, empregados de copa, voluntários, etc) nos deveriam merecer um respeito maior, se mais atento.

    Aproveito, ainda, para dizer que não fiz “gosto” no post sobre a amizade sem maiúscula mas que gostei muito dele.

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